Um remelexo nos quadris e uma troca de passos intermitente, para frente e para trás, com pequenas variações ortogonais que dão a impressão de um desequilíbrio comedido, com o movimento dos braços em cadência opositiva em relação aos pés... O sujeito tergiversa com aquele que pretende passar pela rampa, quando se pensa que sobe está a descer, quando parece que desce, sobe. Os movimentos de desequilíbrio contínuo causam vertigem ao cidadão, geralmente atrasado, que pretende cruzar aquele obstáculo à sua frente. Um segundo a mais e logo vem a troça, pequenos apupos de canto de boca, testa franzida, mãos para frente e à altura do peito, barriga encolhida e se vai a esguelha . Mas a sensação é intensa, muda repentinamente, a condescendência e o desespero vem a tona quando vemos que o vulgo dançarino de rampa está prestes a cair! Mas o sujeito se esquiva dos braços que pretendem segurá-lo; vã intenção de amenizar o tombo iminente. E a dança macabra continua sem fim! Não.. sim!! Efeito de rampa, o sobe desce invariável daquele que nem sequer se mexe entre tantos outros que só querem ora descer e ora subir... Vai e volta...vai e volta..esgueirando-se entre a multidão muito bem decidida, corriqueiramente decidida a subir e descer. Ridiculamente atrasados, sobem e descem sem notar que o dançarino assim o faz sem sair do lugar. Uns mais trancafiados em sua litania de subir e descer nem se quer pensam duas vezes...se quer pensam... Logo reverberam em apupos as suas vozes ocas de direção porque só descem e sobem cada coisa de um vez, nunca as duas ao mesmo tempo... Outros; um tanto atentos para seus pés, sabem que descem por que sobem e se sobem é por que desceram, estes sim, não ignoram a enigmática tergiversação do dançarino, mas o interesse vem mais pelo descer e o subir pelo chão, que espera afoito o nariz do dançarino, do que pela face oculta que resguarda a ansiedade do piso que busca o nariz dançante...Pois é... Quando se dança em rampa, se sobe e desce ao mesmo tempo, o chão por sua vez é quem nunca para. A queda iminente é sempre queda, sem pára-quedas pensa-se ao ver, quando o enigma é justamente não ter um chão em que parar, cada passo é perto e longe do chão. O sobe e desce de uns é o sobe-desce do outro... A obliqüidade do atraso daquele que se depara com o coringa dançarino é justamente a multiplicação infinita de um espaço mínimo... Não se passa pelo dançarino, mas o seu remelexo é de nível cinco entre os furacões e de magnitude 7 entre os terremotos.. a dança de rampa é um furamoto, um terrecão...sem obliqüidade, o canto que atravessa o horizonte da rampa é o ponto cego onde baila o dançarino sempre a subir descendo, caindo num salto sem chão e firmamento. O que vem a baila quando se está atrasado? Que querem viver estes que entre apupos e admoestações só pensam em ir e vir nunca ir-vindo e vir-indo, nunca pulando sem chão, sempre com passos vazios na direção que se esgueira pra não se entregar à música insana daquele que dança a eternidade fugaz de uma rampa entre um andar e outro. Pois eu lhes digo que viver assim é morrer na descida que sempre sobe e viver na subida que sempre desce pelas mesmas razões. O dançarino por sua vez baila não sobre nem sob qualquer um desses burgueses preocupados com o tempo, mas entre eles, mira-lhes de soslaio e numa sonora gargalhada rasga o vácuo que irrompe entre a incerteza de um apupo ou uma admoestação. Eco fantasmagórico de um outro que desce subindo e sobe descendo sem precisar escolher (não há escolha) entre esgueirar-se pra descer ao banheiro ou subir à sala. Movimento fugidio que não deixa ser uma coisa de cada vez quando se precisa de todas juntas para se ter a ilusão de que o apupo veio por que se quis e a admoestação por que se compadeceu. Ri de si mesmo este louco hierofante de rampas, pois sabe que é ele que se apupa a si mesmo quando passa a uma admoestação por sua quase-queda num chão que não para de se movimentar. Sabe que é todos e nenhum, por isso dança sempre, mesmo quando caminha para baixo ou para cima, dança precisamente o impreciso de suas impressões tão verdadeiras e eternamente inalcançáveis... Apupos ocos senhores! Não vaiem! Dancem! Não se esgueirem, ele sobe quando desce, a passagem é livre! Não se assustem; ele não cai! Só cai quando não está no chão! Mas sem admoestação, por favor, senhores! Ele caiu de verdade, é que o chão é tão longe de seus pés quanto próximo do seu nariz! A gargalhada assombra e os passos para cima e para baixo ressoam no caminho de quem desce sem subir e sobe sem descer. O dançarino é só espelho, friso espelhado de um universo sem fim daquele que só observa em uma direção! Pra que descer senhores do tempo que nunca tem tempo só para descer ou subir!? Cantem! Não vês que estais a baila com direções inconsistentes? Cantem! Cantem!Dancem! Dancem! O dia raiou por que já é noite! Só se canta quando dança, a música não para! há sempre uma rampa sem fim que se escolher, descer ou subir! Por que não evocais o dançarino? Não vês que sois a rampa? Rampa! Rampa! Assim sobe e desce com teus pés indecisos de atraso de um tempo que não é senão música mal dançada... Espera!! Mas não pare de andar idiota!! Escuta! Para de respirar!! A gargalhada dançante esta aqui! Não consegues ver?

Nenhum comentário:
Postar um comentário