25.7.12

(desa)Justas Justinianas: Entre destinos e destinações ou O Justo Vazio de quem anda cheio de si


Justino caminha perplexo pela multidão blasé que se vê muito ocupada em suas razões nadificantes[…]Seu caminhar não aparenta o furor da sua perplexidade, ela é quase  um trauma,  um ato de violência que explode em seu interior, dilacerando a identidade de quem se crê convicto em seus entendimentos. No entanto, ninguém o nota, sequer o olham [...] Se ao menos soubessem  que ali, entre  o caminhar anônimo, dilaceram-se identidades e razões simplórias destas existências vagueantes...

A solitude impressiona os sentidos, pois se tornou para Justino, a razão inversa da presença  das pessoas.  A perplexidade que o atravessa e o dilacera é  a deste descompasso do caminhar só em meio à multitude blasé. Mas é obvio que nessa estorieta há algo muito clichê, impossível vencê-lo mesmo estando só, principalmente só, quando se escreve para aquele outro que se pretende o lerá, o entenderá. Clichê que se repete quando Justino caminha em meio a outros tantos justos de si mesmos, a mesma repetição tortuosa de quem escreve para si mesmo, um outro de si, completamente livre da solidão justiniana.

Impossível para mim descrevê-lo. Justino cabe justamente nas palavras que desventuradamente entretecem esta escrita. No entanto minhas náuseas são tão inferiores às deste herói que me torno incapaz de poupá-lo da mediocridade com que o descrevo. Todas as razões do mundo foram-lhe apresentadas, todos os mestres o tutelaram, se não em presença física, em presença imaginativa. E como são grandes as fissuras imaginativas deste tal, talvez aí eu o encontre, como um sábio louco contemplativo [...] Estando só, nunca esteve tão ativo, estando vivo nunca esteve tão morto para os outros. 

Há muito ele não reconhece este corpo; quando o faz, a perlexidade o arrasta para o fosso de si mesmo. Simplesmente deixará de se fazer a si mesmo, nada de recomendações o afetava, tinha tudo o que todos dizem aos outros como soluções finais. Aquelas verdades douradas com o ramo da moralidade que todos carregam mas fingem não saber também o pertenciam, ele as viveu as compreende mas a erosão identitária o devasta a inanição filosófica o destroça. Não mais vive sem caminhar... caminha por entre tantos outros sem sair de lugar, velozmente se desfaz e refaz milhões de vezes. O grito de dor não vence o renascimento incessante de seu desfaleciemento. E ainda uma vez mais repito, ele sem igualdade de condições viveu as vias alternativas deste mundo. A sua tristeza se entristece de si mesma, sempre ela por toros motivos diversos, nunca outra.

Queriam julgá-lo mas esqueceram que as razões de superfície são mais densas daquelas profundas produzidas pelos caminhantes blasé que desconhecem o (desa)justino. Quisera eu um dia sequer poder afirmar a vocês todos que compreendi Justino. O penso as mais das vezes como um egoísta, alguém que afirma seu ego negando-o, querendo não acabrá por ser alguém distante de si e de outros. Dizia-se livre das identidades, vejo-o porém com uma repetição inversa, aquela da diferença. Quando o conheci, disse-me ele que era todos no mundo, um por vez, de cada vez. Chegara a minha hora, dei-me de braços desatados, aquilo que não sou disse-lhe... Encontrei as franjas emaranhadas dos meus próprios limites, desatei e me esvaí por todos os lados, deixei a mim, pois a sua presença me bastava. [...] Olhar incandescente, riso sagaz de quem reconhece em ti aquilo que quer, sem ao menos dizer-te que tens aquilo que ele sabe e quer. Amizade translucida obtive, ou não... Deixei de existir, arrastou-me e em desatino  destruiu a si no meu ser.

Sabia como poucos as artes da comissividade, da compaixão, era dionisíaco, porém. Intensidade fulgurosa de vida; tirava a si mesmo de outros pela sua própria vontade de ser sem deixar ser. A estabilidade o amedrontava, vivia em velocidade incontrolável mesmo quando tomava para si o papel de contemplar, gostava mesmo era de passar. Disseram-no , certa feita, que ele reencarnara mil vezes antes de encarnar uma vida e numa mesma vida vivia mil vidas sem desencarne, era o ponto zero karma-dahrma sufocante, amor dilacerante, furor destrutivamente monotonizante e apaziguante...

Justino, caminhara por estas vielas como se fora seu destino, justo destino imposto e escolhido por uma tentativa insossa e determinada de desapego a quaisquer arbitrariedades. A liberdade do não, sabe? Escolhera virar a esquina de birra, sem mais determinações de sua vida e no entanto traçara aqueles passos como se houvera nascido para aquilo. Triste, vazio de imensidão imaginativa, pulsante e criativo, caminhava blasé... Nada e ninguém  o destituira de si, não era necessário. Ele o fizera mais de dez vezes em um dia, por que a preocupação com o cuidado de si... Sei que não o compreendi, amei-o sem dúvida, pela justa dúvida a que me lançara.
[...] Aquele que vive o seu destino o escolhe no momento em que o faz... a ilusão de um caminho bem traçado pela intensidade da experiência... O destino, porém, anterior a toda a experiência a chancela pela vivida chama daqueles que o trazem  a nossas vidas. A incerteza daquilo que é certo é fundamento, a implosão da dúvida, o medo a destruição do nascimento da fagulha originária da nossa existência. Passara tão rápido naquele caminhar desiludidamente perdido pela convicção.  Sabia tudo e por isso não possuía a si mesmo.  Segui-lo  não é o que ele desejara de mim, mas como negar-me seria negá-lo em sua negação, não pode dizer-me nada. Soube, porém, na ultima vez que o fitei... Quisera tornar a ser eu mesmo seguindo-o sempre. Egoísta aquele tal e se declarava anti-justo, Justino... o centro e a dúvida da doação e do egoísmo, tão singela e intensa  era aquela veste que o carregava, tão permissiva e autoritária a voz que o fazia ressoar em nossos pensamentos, confundiu-me como algo a que sempre esperei... Odeio amá-lo e como não odiá-lo pelo que me fez, mas como não agradecê-lo. Deu-me memória, pois trouxe-me ao meu início, mesmo que chegando no meio. Não me deu nada, apenas fio... Desfiou-me a alma para que não mais pudesse usá-la para segui-lo.  Torno-me aquilo que nego, porém afirmo que nego aquilo que posso dizer dele mesmo. Não ouso descrevê-lo se não em seu caminhar, o resto o faz a minha mediocridade... Amar aquilo me fez odiá-lo pois era eu mesmo noutro corpo, numa vida que buscava ser outra, se não de mim ao menos de si...



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