Justino caminha perplexo pela multidão blasé que se vê muito
ocupada em suas razões nadificantes[…]Seu caminhar não aparenta o furor da sua
perplexidade, ela é quase um
trauma, um ato de violência que explode
em seu interior, dilacerando a identidade de quem se crê convicto em seus
entendimentos. No entanto, ninguém o nota, sequer o olham [...] Se ao menos
soubessem que ali, entre o caminhar anônimo, dilaceram-se identidades
e razões simplórias destas existências vagueantes...
A solitude impressiona os
sentidos, pois se tornou para Justino, a razão inversa da presença das pessoas. A perplexidade que o atravessa e o dilacera é a deste descompasso do caminhar só em meio à
multitude blasé. Mas é obvio que nessa estorieta há algo muito clichê, impossível
vencê-lo mesmo estando só, principalmente só, quando se escreve para aquele outro
que se pretende o lerá, o entenderá. Clichê que se repete quando Justino
caminha em meio a outros tantos justos de si mesmos, a mesma repetição tortuosa
de quem escreve para si mesmo, um outro de si, completamente livre da solidão
justiniana.
Impossível para mim descrevê-lo.
Justino cabe justamente nas palavras que desventuradamente entretecem esta
escrita. No entanto minhas náuseas são tão inferiores às deste herói que me
torno incapaz de poupá-lo da mediocridade com que o descrevo. Todas as razões do mundo foram-lhe apresentadas, todos os mestres o tutelaram, se não em presença física, em presença imaginativa. E como são grandes as fissuras imaginativas deste tal, talvez aí eu o encontre, como um sábio louco contemplativo [...] Estando só, nunca esteve tão ativo, estando vivo nunca esteve tão morto para os outros.
Há muito ele não reconhece este
corpo; quando o faz, a perlexidade o arrasta para o fosso de si mesmo.
Simplesmente deixará de se fazer a si mesmo, nada de recomendações o afetava,
tinha tudo o que todos dizem aos outros como soluções finais. Aquelas verdades
douradas com o ramo da moralidade que todos carregam mas fingem não saber
também o pertenciam, ele as viveu as compreende mas a erosão identitária o
devasta a inanição filosófica o destroça. Não mais vive sem caminhar... caminha
por entre tantos outros sem sair de lugar, velozmente se desfaz e refaz milhões
de vezes. O grito de dor não vence o renascimento incessante de seu
desfaleciemento. E ainda uma vez mais repito, ele sem igualdade de condições viveu as vias alternativas deste mundo. A sua tristeza se entristece de si mesma, sempre ela por toros motivos diversos, nunca outra.
Queriam julgá-lo mas esqueceram
que as razões de superfície são mais densas daquelas profundas produzidas pelos
caminhantes blasé que desconhecem o (desa)justino. Quisera eu um dia sequer
poder afirmar a vocês todos que compreendi Justino. O penso as mais das vezes
como um egoísta, alguém que afirma seu ego negando-o, querendo não acabrá por
ser alguém distante de si e de outros. Dizia-se livre das identidades, vejo-o
porém com uma repetição inversa, aquela da diferença. Quando o conheci,
disse-me ele que era todos no mundo, um por vez, de cada vez. Chegara a minha
hora, dei-me de braços desatados, aquilo que não sou disse-lhe... Encontrei as
franjas emaranhadas dos meus próprios limites, desatei e me esvaí por todos os
lados, deixei a mim, pois a sua presença me bastava. [...] Olhar incandescente, riso sagaz de quem reconhece em ti aquilo que quer, sem ao menos dizer-te que tens aquilo que ele sabe e quer. Amizade translucida obtive, ou não... Deixei de existir, arrastou-me e em desatino destruiu a si no meu ser.
Sabia como poucos as artes da
comissividade, da compaixão, era dionisíaco, porém. Intensidade fulgurosa de
vida; tirava a si mesmo de outros pela sua própria vontade de ser sem deixar ser.
A estabilidade o amedrontava, vivia em velocidade incontrolável mesmo quando
tomava para si o papel de contemplar, gostava mesmo era de passar. Disseram-no
, certa feita, que ele reencarnara mil vezes antes de encarnar uma vida e numa
mesma vida vivia mil vidas sem desencarne, era o ponto zero karma-dahrma
sufocante, amor dilacerante, furor destrutivamente monotonizante e
apaziguante...
Justino, caminhara por estas
vielas como se fora seu destino, justo destino imposto e escolhido por uma
tentativa insossa e determinada de desapego a quaisquer arbitrariedades. A
liberdade do não, sabe? Escolhera virar a esquina de birra, sem mais
determinações de sua vida e no entanto traçara aqueles passos como se houvera
nascido para aquilo. Triste, vazio de imensidão imaginativa, pulsante e
criativo, caminhava blasé... Nada e ninguém
o destituira de si, não era necessário. Ele o fizera mais de dez vezes
em um dia, por que a preocupação com o cuidado de si... Sei que não o
compreendi, amei-o sem dúvida, pela justa dúvida a que me lançara.
[...] Aquele que vive o seu
destino o escolhe no momento em que o faz... a ilusão de um caminho bem traçado
pela intensidade da experiência... O destino, porém, anterior a toda a
experiência a chancela pela vivida chama daqueles que o trazem a nossas vidas. A incerteza daquilo que é
certo é fundamento, a implosão da dúvida, o medo a destruição do nascimento da
fagulha originária da nossa existência. Passara tão rápido naquele caminhar
desiludidamente perdido pela convicção.
Sabia tudo e por isso não possuía a si mesmo. Segui-lo
não é o que ele desejara de mim, mas como negar-me seria negá-lo em sua
negação, não pode dizer-me nada. Soube, porém, na ultima vez que o fitei... Quisera
tornar a ser eu mesmo seguindo-o sempre. Egoísta aquele tal e se declarava
anti-justo, Justino... o centro e a dúvida da doação e do egoísmo, tão singela
e intensa era aquela veste que o
carregava, tão permissiva e autoritária a voz que o fazia ressoar em nossos
pensamentos, confundiu-me como algo a que sempre esperei... Odeio amá-lo e como
não odiá-lo pelo que me fez, mas como não agradecê-lo. Deu-me memória, pois
trouxe-me ao meu início, mesmo que chegando no meio. Não me deu nada, apenas
fio... Desfiou-me a alma para que não mais pudesse usá-la para segui-lo. Torno-me aquilo que nego, porém afirmo que
nego aquilo que posso dizer dele mesmo. Não ouso descrevê-lo se não em seu
caminhar, o resto o faz a minha mediocridade... Amar aquilo me fez odiá-lo pois
era eu mesmo noutro corpo, numa vida que buscava ser outra, se não de mim ao
menos de si...

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